De vez em quando dá-me para recordar. Ando com o passado atrás de mim. Não sei porque me entrego a este passatempo, a esta espécie de bricolage interior… recordo para não acordar. Talvez seja isso.
A memória é uma colagem, uma sobreposição de imagens. Uma brincadeira com um gosto por vezes duvidoso, que deixa sempre alguma coisa por desejar. Mas somos capazes de nos entregar a ela, de a deixar corroer-nos os pensamentos.
Deixamos gavetas entreabertas e, de vez em quando, em dias de nevoeiros interiores, damos por nós a sentar-nos no chão, pernas em posição de yoga, a rebuscar dentro de armários e cómodas antigas que nos habituaram a chamar passado.
Recordar é um jogo quase absurdo, um vício umas vezes dramático outras vezes patético, quase nunca saudável. Um passatempo para quem teima em não querer deixar o tempo passar. E o passado não é amigo. Parece, tantas vezes, companheiro, leal. Mas não é amigo. Os amigos andam de mão dada connosco mas deixam-nos seguir o nosso caminho. O passado não.
Não gosto destes dias em que maus tempos interiores me obrigam a sentar no chão e a rebuscar-me dentro de gavetas. Mas, de vez em quando, não estou certa se o presente me apetece.


O Vôvô gosta muito de ti.