O sentido e o rumo do futuro estão inscritos no que fazemos agora. No presente. É a nossa intenção que põe ordem no futuro. Fabricamos uma perspectiva em que nós somos o centro. Não é a perspectiva da pintura. Não, isso é assunto de arte ou de artifício. Existe num quadro para constatar a mudança de planos. Esta perspectiva de que falo é a que gera a ideia de tempo.
Quando se passa do prazer à dor sentimo-nos em mudança. Mesmo quando não somos capazes de estabelecer uma relação entre os dois termos da mudança. Na sua origem, o curso do tempo é a distinção entre o que se quer, entre o que se deseja e o que se possui. Reduz-se, assim, à intenção seguida por um sentimento. Não se sente, senão, por instantes. O sentimento do tempo, a duração, não é homogénea. É feita da poeira de instantes. Deve-se a um grupo de instantes que ficam rigidamente ligados pela perspectiva. Pelo traçado da memória humana. O sentimento do tempo, de duração, é o da ordem das lembranças. A sua representação deve-se a uma arte: a memória.
É à nossa consciência que cabe tecer uma teia, urdir uma trama com instantes. E com ambas, fabricar o tecido que nos dá a sensação continuada de ser. De existir. É este tecido que sustenta o leito do tempo.
Nele vogamos com a rapidez do devir. Com ideia e acção não descobrimos o que é quietude. Com ideia e acção não descobriremos, alguma vez, o que é o silêncio.
Por isso, talvez não haja tempo fora dos desejos e das lembranças. Talvez não haja tempo fora das imagens que se sobrepõem aos objectos que as invocam. Talvez seja esta sincronicidade, esta coincidência, que constrói a aparência do tempo e do espaço.
O sentimento do tempo, a espera e o desespero, nascem da nossa perspectiva. Talvez, um dia, possamos saber a operação, o modo, para distinguir planos neste novo tipo de espaço: o tempo.
Queremos ver, hoje, nesse operador o mecanismo que faz passar do sentimento do tempo para a ideia de tempo. Queremos atribuir-lhe a capacidade de estabelecer a duração real. Inventámos o relógio. O símbolo que representa o tempo no espaço. É pela posição no espaço dos ponteiros que dizemos estar a medir o tempo real.
F. Carvalho Rodrigues